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quarta-feira, 22 de julho de 2015

Top 10 Vadias

Meninas abandonam estudos e tentam suicídio após entrar para lista das "mais vadias" 
(Notícia aqui)

'Ranking' expõe intimidade sexual de alunas da USP e causa revolta (Notícia aqui)


Defina “vadia”. Diversos adjetivos pejorativos ligados à sexualidade da mulher lhe sobrevieram à mente. Defina “vadio”. Homem desocupado.


Quando deparei com essas notícias há alguns meses atrás, logo pensei “quem é o vadio/vadia na verdade?”.  São essas garotas covardemente listadas nas mais tenebrosas “premiações do ridículo”, ou são os desocupados garotos que promovem tais definições fúteis e discriminatórias? Onde realmente se encaixa o conceito?
Creio não ser uma pergunta difícil.


Segundo a reportagem, os rankings já existem por mais de um ano, e os “critérios” são dos mais variados. “Fulana usa aquela calça colada e anda rebolando, merece a posição 7”, “Tati ficou com seis moleques, putz, essa é um claro caso de 5º lugar”, “Bruna enviou foto nua para o namorado e tá rodando no whatsapp, merece um 2”, e a medida que essas garotas vão vivendo, o ranking vai se movimentando e suas colocações transitando.

Os “resultados” eram divulgados nas redes sociais e até mesmo em cartazes colados nos muros das escolas e da universidade, no caso da USP. E infelizmente, os tais “Top 10” não estão restritos aos locais que ocorreram as denúncias na mídia, já existem registros de casos no Rio de Janeiro, Minas Gerais, Paraná, e sabe-se lá, por onde mais essas ultrajantes listas estão sendo formuladas. Uma verdadeira praga. Tal como um Oscar, também aparecem outras categorias “a mais preta”, “as lésbicas”, e ninguém está a salvo de, involuntariamente, participar do certame.


Dentre os mais variados temas que o assunto trás à tona, como educação, orientação sobre sexualidade para os jovens, quebra de tabus nas escolas, diálogo, atuação do Estado para propiciar atividades educativas aos jovens, promoção da equidade de gêneros dentro da escolas e comunidades, é fato que essa notícia apresenta um exemplar perfeito de vários erros que nós mulheres confrontamos no dia-dia.

E a origem do problema é o mesmo. Pausa para o “ai lá vem”, “ela vai dizer aquela palavra...”, é, já aviso, vou dizer SIM que a semente do problema vem da (des)construção de uma sociedade ma-chis-ta. Pronto, tá aí a palavrinha chave que você não queria ler, machismo.

Mesmo que alguns torçam o nariz para o machismo, não é novidade que ele protagonize e seja a causa de criar situações deploráveis na história de garotas que apenas estão tocando suas próprias vidas. Mas saber que meninas estão abandonando os estudos, reclusas em casa com depressão e até mesmo considerando o suicídio por conta das facetas do machismo, é novidade para você? Se não for novidade, com certeza não deixa de ser preocupante, melancólico, aterrador.


Os garotos tiveram sua cota de “Top 10”, em contrapartida, são classificações desejadas, disputadas entre eles, ora, o “pegador”, quer título melhor? A eles, o orgulho, a elas, a vergonha. Precisa mesmo reiterar que “slut shaming”, ou também conhecido como a perversa fiscalização do comportamento sexual das mulheres, é errado, é prejudicial?


E se vier com esse papinho de que “nessa idade tem é que estudar, se tá nessas listas é porque boa coisa não tá fazendo”, segura esse alerta: qualquer opinião dessa natureza é infundada,  medíocre, não acrescenta e nem faz voz no coro. A voz que se destaca aqui, clama por respeito. Respeito às descobertas, à intimidade, às experiências de cada uma. Respeito ao direito da mulher conduzir sua vida íntima, afetiva, amorosa como lhe convir. Não é utopia, é autonomia. Questão de equidade, existe, e não é um sistema falido.

Diante a polêmica das escolas de São Paulo, algumas meninas ainda foram questionadas pelos pais (inversão vítima-ofensor), sofreram forte preconceito da comunidade, foram deliberadamente julgadas e apontadas. “Joguem pedras nas Genis!”, pensaram eles. São garotas adolescentes, passando por uma turbulenta fase psicológica e física, procurando aceitação. Repudiamos o apedrejamento de mulheres em outros países, nos gabando da nossa nobre civilidade, enquanto ignoramos que as palavras ferem tão gravemente como uma rocha.


Quanto às meninas que pactuam e cooperam com essas listas, é uma lástima ainda mais sofrida, entretanto, compreensível, em que pese ser resultado da insistente perpetuação do discurso machista que se beneficia com a rivalidade e competitividade feminina. E aqui me permita incluir um conselho, porque não podemos deixar as minas andando sob o véu escuro da ignorância: moça, conspurcar a coleguinha através de ofensas quanto a sua sexualidade (“piranha”, “puta”, “vadia”) não torna a sua reputação intocável e pior ainda, tem efeitos nocivos em todas mulheres, inclusive em você mesma! A ofensa sexista afeta a todas nós, e só tem o condão de nos privar de desfrutar os prazeres que a liberdade proporciona!

A resposta para as humilhações públicas não é revidar os autores no mesmo sentido negativo, mas sim retirar o efeito negativo de nós! Aos desavisados que estavam em Marte nas últimas décadas, feminismo não é o contrário de machismo, não queremos que atitudes opressoras se igualem para ambos os lados, mas sim que a liberdade prospere para todos, como iguais.

Já falei e repito, mulheres, uni-vos! As listinhas e outros truques existem para nos enfraquecer, quebrar o elo. A mudança começa em nós. Os patrulheiros da sexualidade feminina se alimentam da nossa vergonha, da nossa vulnerabilidade em acreditar que ser livre é errado, e sentir culpa é o certo.


Se o sossego de uma mulher depender da aprovação alheia através de um criterioso processo seletivo de análise do seu histórico comportamental, nenhuma com o mínimo de personalidade passa no teste! Aliás, você precisa se sujeitar a testes? E aquela que não estiver no desconhecido éden-das-mulheres-perfeitas, está facilmente sujeita a amanhã encontrar seu nome nas infames listinhas das top 10 vadias! “Pô, mas aí você foi radical e cruel...” Não, crueldade é tabelar e expor a mulherada com o egoístico intuito de rechaçar e se divertir com a humilhação delas, ainda mais quando a listinha do ‘quem te perguntou’ não tem ninguém inscrito. 


Ignorar não é tarefa fácil mulherada, mas podemos criar redes de diálogos e informação que recicla esse lixo em lições úteis de conscientização para garotas e garotos.

O nosso trabalho é conjunto, é aprendizado e é luta, para que nenhuma mulher se sinta inferiorizada socialmente pelas estratégias machistas de desmoralização. O pomo da discórdia não premiará a mais bela, mas com certeza continuará criando rankings que reforçam conflitos entre guerreiras que batalham do mesmo lado. Não vamos sucumbir, e iremos ao socorro de todas que caem nessas armadilhas. Aqui, Afrodites, Atenas e Heras não disputam entre si, estão lado a lado, unidas por uma razão que verdadeiramente vale a pena lutar.


Por Morato/Agridossiê

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terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Do Twitter para o Tapete Vermelho

Em 2014 a atriz e comediante Amy Poehler apresentadora do Golden Globes ao lado de Tina Fey (a dupla rendeu uma excelente e elogiada apresentação, diga-se de passagem) disparou essa aos repórteres: “ask better questions”, se referindo às perguntas destinadas às mulheres no tapete vermelho.


O que isso quer dizer? Quer dizer: façam perguntas melhores! Não se trata apenas da tradução, é o que realmente quer dizer. As celebridades que encaram entrevistas na mídia, com destaque para as transmissões internacionais dos tapetes vermelhos das premiações, acabam lidando com perguntas limitadas a seus vestidos, estilistas, fórmula do corpo perfeito, casamento, pretendentes, joias, estética e não são contempladas com perguntas relevantes sobre suas carreiras.


É maravilhoso esse Valentino desfilando em frente as câmeras? Uhum, de fato. Só não inverta os valores. O foco é essa mulher que está vestindo o Valentino e conquistou seu espaço com resultado dos seus esforços. Esse vestido está nela, e não o contrário. Quando esses mesmos profissionais são homens, as perguntas são direcionadas à projetos futuros, expectativas e opiniões. Por que raios esse nobre interesse fica estrito às mulheres? Perceberam a falha na comunicação?

A Amy Poehler percebeu e não deixou quieto. Do seu comentário surgiu a campanha no twitter   “Ask Her More” (ou "The Representation Project") que repercutiu com uma ótima aceitação. A atriz Reese Whiterspoon encorajou outras atrizes a participarem da campanha postando em seu twitter algumas perguntas que poderiam ser feitas quando as mulheres fossem entrevistadas, o famoso #FicaaDica. 

A mulherada abraçou a causa e apesar do apelo, algumas continuaram escutando as tais perguntinhas. Em troca elas propagaram um show de bofetadas com luva de pelica na imprensa preguiçosa. Vou postar apenas algumas, mas outras podem ser vistas nessas listas do Buzzfeed aqui e aqui(inglês).

Cate Blanchett para o cameraman do canal E! no SAG Awards em 2014.

Tu é scanner?
*Você faz isso com os caras?
Coletiva de imprensa para divulgação dos filmes "Os Vingadores". Scarlett Johansson, a única mulher entre os personagens heróis é questionada sobre a dieta que fez para caber no figurino da Viúva Negra.

Perguntinhas cretinas...
*Por que ele fica com as perguntas interessantes e eu tenho que falar sobre, sei lá, comida de coelho?
Elizabeth Moss no Golden Globes de 2014 quando perguntada sobre manicure e anéis.

Dispensa legendas hahaha
As mudanças estão acontecendo e a mídia precisa aceitar e se adaptar logo a essa nova perspectiva. Mulheres não são sua aparência! Somos seres com opinião E formadores de opinião, mais respeito, e nem peço por favor. Valorizem a trajetória das mulheres por seus méritos e não por seu guarda roupa. Dê a nós o que é de direito!

E falando em direitos, nesse Oscar 2015 rolou um acontecimento e não tem como ser ignorado:o discurso da Patricia Arquette vencedora do Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por sua atuação em Boyhood, defendendo a igualdade salarial para as mulheres:

"A todas que deram à luz neste país, a todas que pagam impostos, nós temos que lutar por direitos iguais para todos. Está na hora de termos salários iguais de uma vez por todas e direitos iguais para as mulheres nos Estados Unidos"




Com essas falas a atriz foi uma das mais ovacionadas da noite. Para elucidar o problema vamos comparar o cachê do ator e da atriz mais bem pagos de Hollywood de 2014 segundo a revista a Forbes:

 Sandra Bullock - US$ 51 milhões x Robert Downey Jr. – US$ 75 milhões



Desconsiderando o absurdo desses valores, e considerando o absurdo dessa diferença, a coisa tá feia por todo lado, né? Nem um simplório Oscar no currículo da Sandrinha a deixou equiparada com o Homem de Ferro. Igualdade salarial é pauta de discussão até HOJE minha gente! Seja rico, seja pobre, o errinho sempre vem.

Uhum, sério Amy.
O discurso da Patricia Arquette é muito bem vindo e oportuno em vista da magnitude que um evento como o Oscar representa, possibilitando despertar o assunto em escala mundial. Ah, não pára por aí! Como foi lindo de se ver a musa e consagrada Meryl Streep vibrando com a surpreendente manifestação da vencedora! As duas concorriam na mesma categoria, e Meryl foi tão verdadeira ao se empolgar e ficar feliz pela “concorrente” que tornou o momento ainda mais inspirador!

Quem não quer ser amiga dessa mulher???
Mulheres vibrando pelo sucesso uma das outras, é sororidade purinha. É animador ver esse comportamento em um ambiente de concorrência e visado por uma multidão de espectadores. Teve união feminina sim, e mais uma prova foi a demonstração de afeto entre Emma Stone e Jennifer Aniston que também se consagrou entre os momentos memoráveis da noite de premiação.

Girls just want to have fun
Não atingimos o ideal, o nosso quórum na indústria cinematográfica ainda está em déficit, mas já temos avanços registrados que merecem ser aplaudidos. Não somos uma estrela de cinema, mas já tá passado o recado: para todas brilharem, só funciona se formos constelação.


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Por Naara Morato/Agridossiê

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

10 Mulheres Brasileiras que se foram mas merecem ser lembradas – PARTE 2

     Apresento a vocês a parte final da listinha de incríveis brasileiras que fizeram história. 
     Se você perdeu a primeira parte, é só clicar aqui <Parte 1> e conferir a lista completa!
     Lembrando que a lista não segue um critério de ordem.
     Vamos lá?

6) LEILA DINIZ (RJ, 1945 – 1972)
     “Bagunçar o correto era com ela.” Diz um certeiro Xico Sá (Dez "vadias" históricas do Brasil) sobre a carioca que bagunçou os costumes do Brasil. Leila Roque Diniz, atriz, anos 60 e 70, mulher do futuro. Contexto histórico brasileiro: anos de chumbo. O elenco é composto por conservadores no cenário do regime militar, e eis que nesse palco sobe a nossa estrela, Leila Diniz, um sopro de alegria e liberdade em meio a tanta violência e repressão.
     Seu maior mérito foi dizer o que pensa numa época que mulheres não podiam pensar, muito menos dizer. E ela realmente não podava suas palavras para expressar paixões, vontades e esculachos. Em 1969 ela concedeu uma entrevista emblemática para O Pasquim (a qual já li várias vezes, entenda o motivo clicando aqui) granulada de astericos para camuflar os palavrões ditos na mais profunda sinceridade despreocupada da atriz.
     Leila é inspiração para tantas mulheres que se sentem aprisionadas pelos ditames da mulher-perfeita. Até os dias atuais perduram comentários sobre     Fulana que estava de biquíni na praia e chamou a atenção dos fiscais do corpo alheio de plantão, pois bem, Leila não dava a mínima para isso. Isso lá, em tempos que o corpo da mulher além de um bibelô para o mundo, era uma propriedade do Estado. E a danada fez o que? Pousou de biquíni na praia. Em plena ditadura. Grávida.
     Três gols pode pedir música no Fantástico Tadeu? Então manda aí, “Todas as Mulheres do Mundo” da Rita Lee, por favor!




7) PAGU (SP, 1910 – 1962)
       Provavelmente você já sabe que ela estava indignada no palanque, mas por qual motivo? Liberdade. E se tem alguém que foi tolhida de sua liberdade nessa lista, foi essa mulher. Nossa Patrícia Galvão foi presa mais de 20 vezes! Mas esse é seu mérito? Não, mas uma das consequências dele.
  Pagu foi escritora, jornalista, poeta, desenhista e diretora de teatro que podia até passar apática na história, se somado a todos esses atributos não estive um comportamento incompatível com o esperado para as mulheres nas décadas de 1930, 1940. Foi defensora do Manifesto Antropofágico juntamente com seu então marido, Oswald de Andrade. Como esse movimento cultural também incluía questionamentos políticos, Pagu não se esquivou de se enveredar por esse lado. Filiou-se ao Partido Comunista Brasileiro durante o governo Getúlio Vargas, o que culminou na sua primeira prisão, sendo reconhecida como a primeira mulher brasileira a ser presa por motivos políticos.

     Pagu criticava o tradicionalismo da sociedade paulista da época e militava pela liberdade da mulher, mas nesse ponto com um toque especial. Para ela, o feminismo não se construía apenas pelo sucesso profissional da mulher, sua reflexão evoluiu implementando ao feminismo, a liberdade sexual. Também elaborou um estudo corajoso e empenhado sobre uma união de temas que até então não tinha despertado interesse em ninguém: condição das mulheres de periferias. 
     Extravagante,  divergente, fama de porra-louca, tudo bem. Pagu é uma daquelas musas que precisam ser conhecidas por trás da fama.


8) CELLY CAMPELLO (SP, 1942 – 2003)
     “Tomo um banho de lua, fico branca como a neve
      Se o luar é meu amigo, censurar ninguém se atreve..”
     Você leu cantando.  Mas agora pode estar se perguntando porque a garota do biquíni de bolinha amarelinha presenteada com um estúpido cupido está nessa lista. O motivo é simples e justo: Celly Campello é considerada a precursora do rock brasileiro. Mesmo que suas músicas sejam versões internacionais (costume da estilo) e até ingênuas, a paulista conquistou o título e convenhamos, são canções divertidas sim!
     Além de ser uma figura importante dentro da Jovem Guarda, de quebra a moça dava representatividade feminina dentro do novo movimento da juventude dos anos 60. Embalou vários sucessos que até hoje são conhecidos e, incontestavelmente, marcou o cenário musical brasileiro.
     E antes que surja a dúvida, a “mãe do rock” é assim reconhecida por Rita Lee e Wanderléa. Pois é, a propulsora do rock brasileiro não usava coturnos, mas sim lacinhos cor de rosa pra enfeitar.


9) CECÍLIA MEIRELES (RJ, 1901 – 1964)
     Uma das poetisas mais conhecidas da literatura brasileira também carimbou seu nome em terras estrangeiras. Apesar de se destacar como poeta, Cecília Meireles acumulava os talentos de professora, tradutora, pintora e jornalista.
Detalhes mais pessoas da sua vida eram conhecidos através de suas crônicas publicadas em jornais. Suas publicações em jornais mais polêmicas foram pelo ativismo educacional. E quem denuncia os problemas de opressão e patriarcado no acesso à educação já merece amor, carinho e nome na lista.
     Apesar de se declarar avessa à política, Cecília expressava críticas e opiniões destemidas em sua coluna diária nos anos 30, chegando a chamar o então presidente Getúlio Vargas de “Sr. Ditador”, e se manifestar contra o ensino religioso nas escolas, acusando o Ministro da Educação e Saúde de irresponsável por tal medida. Através de vários artigos, Cecília militou pela educação mista, a modernização e a liberdade nas escolas brasileiras. Foi fundadora da primeira biblioteca infantil do Brasil, em 1934, localizada em Botafogo no Rio de Janeiro.
     Em 1965 recebeu o Prêmio Machado de Assis pelo conjunto da sua obra. Dentre outras premiações está a homenagem de Doutora “honoris causa” pela Universidade de Delhi na Índia, por divulgar a cultura do país.
     Seja simbolismo ou modernismo, é fato que Cecília Meireles foi muito mais que uma peça de um movimento literário, seu legado a torna um símbolo de uma mente moderna e brilhante.


10)   ZILDA ARNS (SC, 1934-2010)
     No mundo real, assim seria uma fada madrinha para milhões de crianças e adolescentes: Zilda Arns. Fundadora da organização internacional Pastoral da Criança seu nome é presença garantida nas menções de mulheres ilustres, aqui e acolá.   
     A pediatra e sanitarista dedicou sua vida às ações solidárias. Sua missão era criar melhores condições de vida em comunidades mais pobres, colocando as famílias atendidas na posição de protagonista de suas transformações sociais. As políticas públicas em saúde e família promovidas por Zilda Arns conquistou milhares de voluntários que davam assistência à crianças, adolescentes e gestantes, reduzindo a mortalidade infantil e fornecendo meios para o desenvolvimento da infância e juventude.
     Ela faleceu atuando na sua missão quando expandia seu projeto no Haiti, em consequência de um violento terremoto que o país sofreu em janeiro de 2010. Por realizar um trabalho humanista de valor tão expressivo para a sociedade, foi indicada postumamente ao Nobel da Paz em 2011. Acontece que Zilda Arns era uma pessoa que lutava por pessoas, e seu catalisador era o amor. Só de ler sobre essa grande mulher o coração fica dócil.
     Zilda Arns era uma fada madrinha que usava sua varinha como batuta, acreditando que educação e instrução mantém a magia após o badalar da meia noite.

     Repito:não foi nadinha fácil selecionar apenas 10 mulheres! Elas estão por toda parte e por toda história, e com muita luta consegui chegar a esse resultado. A intenção era resgatar o legado de mulheres inspiradoras e admiráveis que muitas vezes ouvimos o nome e sabemos muito pouco. Como a lista diz, se foram, mas suas contribuições seguem presentes no nosso dia-dia.
     Gostaram da lista? 
     Algum nome que gostaria de ter visto aqui?
     Deixem sua opinião!

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Por Naara Morato 

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Música: Da Janela

Não se enganem com a leveza da melodia da bela "Da Janela": ela tem uma letra pesada sobre opressão, sobre a história vivida por mulheres ao longo dos séculos. 

"Ela fechou os olhos e ouviu
Todas as mentiras que diziam
Chamando-a de vulgar e desprezível
Por não fazer o que queriam
Ela não tinha o que fazer
Pois precisava de permissão"

"Da Janela" nos mostra o sistema que dita moralidade, regras, que cala e aponta o dedo para o comportamento da mulher, para que ela não tenha autonomia sobre o próprio corpo, sobre a própria maneira de pensar.

"Ela fechou os olhos e ouviu
Todas as mentiras que diziam
Chamando-a de vulgar e desprezível
Por não fazer o que queriam
Ela não tinha o que fazer
Pois precisava de permissão
Diziam que seu corpo não era seu
Que perguntar demais a deixava doente
E que devia sua carne e sua mente
Ao que chamavam de um deus
Ela não tinha o que temer
Pois não precisava ter opinião"

"Da Janela" é uma história dentro de várias histórias que todas vivemos todos os dias, que perpetua medo, insegurança e silêncio.

"Até mesmo a sua mãe
E todas as outras suas mães
Que só queriam o seu bem
Diziam aquilo também
Ela não tinha o que fazer
Pois precisava de permissão
Para dizer sim ou não
Daqui até morrer"

Mas "Da Janela" também não deixa de ser uma bela homenagem àquelas mulheres que conseguem se desvencilhar do incômodo obscurantismo de não ter opinião. Mas, para tanto, é preciso abrir as janelas para iluminar o caminho do questionamento desconfortável. Quem acha que somos livres, é porque nunca abriu a janela o suficiente para se chocar contra as grades.

"Mas ela era má e não queria aprender
Aquilo que determinaram ser o certo a se fazer
Abriu sua janela sem saber o andar
E decidiu que a partir dali aprenderia a andar"


“Da Janela” é a segunda música de um projeto brasileiro novíssimo chamado IFall. Totalmente escrito, executado e produzido por Caio Duarte.
Página do Facebook: https://m.facebook.com/ifallart


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Por Hellen Cristine/Agridossiê

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Sobre Mitos Feministas e Liberdade

Há poucos dias me vi fazendo um julgamento de uma moça do qual me envergonhei absurdamente depois. O que era o julgamento não vem ao caso, mas gostaria de expor algumas ideias para vocês. Eu tento defender diariamente em cada conversa que tenho, liberdade de escolha e respeito ao próximo. E eu tento, porque não é fácil não se deixar levar pela nossa sociedade, pelo julgamento alheio, pelos padrões que são impostos como únicos e verdadeiros. E eu tento porque quase sempre fico na dúvida entre ser a calada-que-concorda-com-tudo ou a chata-que-defende-ideias e mostra o quão preconceituoso e machista pode ser aquele julgamento da pessoa. Quase sempre pensamos que não somos influenciados pelo meio, pelas companhias, que nossas ideias são originais e pimba! De repente me vi caída em uma tremenda armadilha preconceituosa. Então resolvi escrever este texto como um desabafo para mim mesma, e também para sempre voltar quando estiver prestes a me deixar levar pelo pensamento dominante, o que, mais uma vez digo, não é fácil.  

Vocês concordam que homens e mulheres devem ser tratados com os mesmos direitos? Ótimo. E que ambos devem ter liberdade de escolha e ser respeitados por essas escolhas da mesma forma? Melhor ainda. Estou cansada de ler lugares comuns de "essas feministas isso, essas feministas aquilo". Pessoas, ISTO é feminismo. Feminismo não é um conjunto de regras que quer ditar ou não o que homens ou mulheres devem fazer. Feminismo é o pensamento da liberdade. Não acredita? Então me segue aqui.
Há uma imposição constante sobre como uma mulher deve se vestir. Sobre como o corpo da mulher deve ser. Sobre com quem e como uma mulher deve transar. Sobre como uma mulher deve parir. Não deveríamos pensar apenas que cada uma deve ser livre para decidir e sem ser julgada por isso?

Se uma mulher que sair de mini-saia, por que um homem se acha no direito de posse sobre o corpo dela? De invadir sua privacidade? De dizer frases que a fazem se sentir julgada, humilhada? Andar na rua virou sinônimo de desfilar na passarela? Com mil olhares e câmeras filmando o tempo inteiro, julgando nosso corpo? Não!

Se uma mulher decide não se depilar, por que julgá-la? Feminismo não é imposição de que todas as mulheres não devem se depilar. Feminismo é, mais uma vez, sobre liberdade de escolha. Depila quem quer, desde que se sinta bem e não o faça apenas por imposição de uma sociedade que diz que pelos são sujos, feios e blá blá blá. Se assim fosse, por que os pelos dos homens também não seriam?

Se uma mulher quer malhar até ficar musculosa, enorme como o Conan, se ela se sente bem estando acima do peso, se ela quer ser magra como a Olívia do Popeye, por que julgá-la? A crítica feminista está apenas na imposição de um ideal de beleza, muitas vezes inatingível, que aliena tantas mulheres para alcançar aquele ideal, não enxergando beleza em si próprias, ficando doentes mentalmente e, consequentemente, infelizes com suas próprias vidas. É muito, muito cruel.

Se uma mulher quer se manter virgem até o casamento, se ela quer transar com mil homens por ano, por que devemos julgá-la? Se ela quer dar de quatro, se ela quer se masturbar, se ela quer gozar, ser amarrada ou simplesmente se resguardar de sexo, qual o problema? Por que ela será a piriguete? Por que julgá-la mal quando vivemos em uma sociedade que sempre tratou a mulher como objeto de procriação e para dar prazer ao homem sem sentir o mesmo "porque é pecado", quando a mulher admirada é a virgem imaculada que cuida dos filhos e que não tem vontade própria? Feliz seríamos muito mais se vivêssemos em uma livre sociedade em que homens e mulheres pudessem fazer sexo sem dogmas, desde que fosse consensual, com segurança e gostoso para ambos, hã? 
Se uma mulher deseja se casar, seja com homem, seja com mulher, se deseja permanecer solteira ou viver poliamores, que assim seja! Se ela quer ser dona de casa e cuidar dos filhos ou se ela quer investir na carreira profissional e decidir não ter filhos, qual o problema? Desde que ser dona de casa e cuidar dos filhos não seja uma obrigação e ela se sinta bem, tá tudo certo. Porque sim, ainda somos mil vezes julgadas com o pensamento de que uma mulher só é completa se casar, se tiver filhos. E é claro que elas irão atrás disso mesmo que vivam de maneira completamente infeliz. Se ela resolve investir na carreira profissional e abdica da maternidade, é como se nenhuma de suas capacitações tivesse importância... apenas os filhos. E se ela deseja ter filhos e ter parto normal ou cesariana, também não é direito de ninguém julgá-la. Mesmo sabendo de nossa cultura de cesárea e imposição médica por ser mais "prático", o corpo é dela, quem irá decidir o que é melhor para si, única e exclusivamente deverá ser ela. 

E, caso ela deseje abortar, também deve ter livre escolha. O aborto é proibido e isso não impede que muitas façam. Isso não impede que muitas morram, principalmente aquelas mais pobres. Ser a favor da descriminalização do aborto não significa obrigar toda e qualquer mulher a realizá-lo, mas sim, oferecer condições seguras para que mulheres possam fazê-lo, é uma questão de saúde pública. Ninguém além da própria mulher deve impor regras sobre o útero dela. Ninguém.

Como eu disse, não é fácil fortalecer todas estas e várias outras questões em mente. Vez ou outra vejo mulheres julgando umas às outras, entrando em rixa por julgamentos machistas. Não devemos culpar ninguém individualmente porque somos sim produto do meio. Cada ser é um mundo e mesmo dentro do feminismo há ideias desde as mais radicais até as mais amenas. O que penso é que não será com imposição de pensamentos que conseguiremos promover alguma mudança. Não é sendo rasa, julgando alguém com meus moralismos que conseguirei que alguém me escute. O feminismo incomoda, é difícil abrir mão das rédeas a que fomos acostumadas a vida inteira, sair da posição de privilégio, de seguir o que é amplamente aceito. Já sofri agressões e distanciamentos por defender o que penso, o que me chateou bastante. 
Mulheres, uni-vos.
São inúmeros os mitos sobre feministas espalhados por aí, mas feminismo mesmo é sobre liberdade, é sobre quebra de padrões. Muitas mulheres sofreram e morreram para que pudéssemos alcançar o patamar que estamos hoje. Se hoje podemos estudar, votar, trabalhar, optar por não ter filhos, fazer sexo por prazer, etc, foi porque muitas lutaram lá atrás para termos esses privilégios. Mas ainda não é o ideal. 

Ainda existem mulheres sendo agredidas, estupradas, assassinadas, reprimidas e caladas por simplesmente serem mulheres, por viverem em uma sociedade construída por homens, para privilegiá-los e facilitar suas vidas. E, sinceramente, por que um homem que não engravida e não tem útero, se acha no direito de apontar o dedo para mim e dizer o que devo fazer ou não com o meu? Por que pessoas que não sabem das minhas lutas diárias como mulher devem ditar a maneira correta como tenho que agir? 
Ninguém é totalmente livre, somos sempre influenciados pelos padrões de mídia e culturais à nossa volta. Mas se concordamos em defender a liberdade para que possamos viver de forma mais igualitária, não deixamos de ser feministas. Se não nos calamos, não somos condizentes com todos esse preconceito vil que existe por aí, começamos a caminhar na estrada certa. E sim, o caminho é ainda muito árduo e longo. O importante é não desistirmos de lutar. E quanto mais nos unirmos, mais fortes seremos.

"...Ela é livre, mas é tão livre que um dia será presa!
Mas presa por que?
Por excesso de liberdade.
Mas essa liberdade é inocente?
É!
Então por que a prisão?
Por que a liberdade ofende..."

Essa frase é da Clarice em "Um Sopro de Vida" e ah! Que possamos todas ser livres!
***
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Por Hellen Cristine/ Agridossiê

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Vamos falar sério: Feminicídio

Hoje é uma data importante para o Agridossiê se pronunciar.
Em 1999 a ONU declarou o dia 25 de Novembro como o "Dia Internacional do Combate à Violência contra a Mulher". E em respeito e apoio à essa luta, vamos não só falar, mas informar e alertar sobre essa mácula que permanece rondando nossa sociedade.
Não fique em silêncio.
A maior expressão da violência contra as mulheres é o óbito. O machismo mata. E essa barbárie tem nome próprio: feminicídio. Embora existam discussões sobre a diferença entre “feminicídio” e “femicídio”, de modo geral entende-se que ambos os termos se referem a mesma situação, o genocídio de mulheres por simplesmente, serem mulheres.
Não ignorem esse fato
A ONU Mulheres emitiu protocolo recente exigindo leis mais rigorosas para tratar do feminicídio na América Latina, e recomendou a inclusão legislativa da tipificação do homicídio por motivo de gênero, com uma ressalva de atenção para os países da América Latina.

No “Mapa da Violência” divulgado em 2012 pela Cebela-FLACSO (Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais), o Brasil ocupa a vergonhosa 7º posição em um ranking de 84 países pesquisados. À frente do Brasil está El Salvador, Trinidad e Tobago, Guatemala, Rússia (!), Colômbia e Belize. Sabe o que essa posição quer dizer? Uma mulher é morta a cada duas horas no nosso país! Ah, e fica pior! Segundo o IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) em balanço divulgado em 2013, a média dos homicídios é de uma morte a cada hora e meia. Oh pátria amada, Salve Salve!!
O mesmo estudo aponta que na maior parte das ocorrências os agressores são homens que tem ou já tiveram relação íntima e afetiva com a vítima, e que o local recorrente das agressões é a própria residência (caso queira conferir as planilhas e o estudo completo, acesse o site clicando aqui.)

Os feminicídios íntimos costumam estar associados a uma (des)construção de violência contínua, como abusos, ameaças, perseguições, torturas, agressões físicas e psicológicas, até culminarem no resultado fatal.

Esse fenômeno também se manifesta com outras facetas: estupro, assédio e violência sexual, mutilação genital, escravidão e exploração sexual, criminalização do aborto, cerceamento de métodos contraceptivos, violência obstétrica, submissão à meio cruel ou degradante.

O genocídio de mulheres existe e deve ser considerado como uma demanda indispensável de proteção dos direitos humanos femininos. A Costa Rica foi o primeiro país latino-americano a penalizar o feminicídio, e aos poucos, mas com certa lentidão devido a gravidade e urgência do problema, mais países estão reformando seus Códigos Penais ou promulgando leis específicas para conferir punição mais rigorosa para o homicídio de gênero.

No Brasil o Projeto de Lei do Senado nº 292 de 2013 (PLS 292/2013) que tem a senadora Ana Rita como relatora, é o mais concreto que temos até então em favor dessa luta.  (Leia aqui o projeto na íntegra). A proposta é inserir no Código Penal a figura do feminicídio como qualificadora do crime de homicídio (artigo 121), e, portanto, aumento da pena aplicável (a prisão de 6 a 20 anos, passaria, nesses casos, para 12 a 30 anos).

Nas palavras da senadora “É importante nominar como feminicídio a morte de mulheres em razão de gênero. Com isso, chama-se a atenção da sociedade para um crime com um nítido recorte de gênero”, ou seja, a lei não tem caráter preventivo. Ter o feminicídio representado na legislação de um país não significa que a solução foi alcançada, a exemplo da Colômbia que reformou seu Código Penal em 2008 para constar crimes contra a mulher como agravante, mas que ocupa a 5ª posição no ranking do Mapa da Violência. A lei deve ser encarada como um catalizador para propulsionar mudanças na sociedade, não como um instrumento jurídico pairando na atmosfera.

A vantagem de ter o feminicídio no Código Penal é a obrigatoriedade implícita de ser conhecido e estudado, até mesmo pelos estudantes de Direito nas faculdades, por exemplo. Entretanto, implica em uma definição do delito mais reduzida. Já a formulação de uma lei específica permite esmiuçar as propriedades do assunto, evitando lacunas ou generalidades para sua aplicação. Em contrapartida, seu conhecimento atinge um público menor, que teria contato com a lei por motivações de interesse pessoal ou pela causa, ficando a parte aqueles que visualizam a “violência” pelo catalogado no Código Penal, e não o consagrado em maior amplitude pelos direitos humanos. Mas pode funcionar, tá aí a Maria da Penha de exemplo. O que não se discute é que seja em forma de artigo ou lei, deve ter.

A lei fica encalhada se a sociedade não alterar seu estado de consciência. A tríade inimiga da vida das mulheres “Virgindade-Castidade-Fidelidade” vira cinzas de um passado distante se não encontrar aliados para compactuarem com esse estigma. A ruptura com o patriarcado e com o exercício de poder e dominação sobre as mulheres é a real conquista de uma sociedade justa.

Respeito ao Próximo é o nome e sobrenome de quem poderia salvar Mércia Nakashima, Eliza Samudio, Eloá Pimentel, Rosa Elvira Cely (colombiana brutalmente violentada e que dá o nome do novo projeto de lei para feminicídio no país), Sandra Gomide, sua vizinha, aquela colega da época de escola, a mãe no noticiário, e tantas outras mulheres que perdemos para a tríade “Intolerância-Machismo-Impunidade”.
Liberdade e dignidade para tod@s

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Por Naara Morato/Agridossiê