quarta-feira, 22 de julho de 2015

Top 10 Vadias

Meninas abandonam estudos e tentam suicídio após entrar para lista das "mais vadias" 
(Notícia aqui)

'Ranking' expõe intimidade sexual de alunas da USP e causa revolta (Notícia aqui)


Defina “vadia”. Diversos adjetivos pejorativos ligados à sexualidade da mulher lhe sobrevieram à mente. Defina “vadio”. Homem desocupado.


Quando deparei com essas notícias há alguns meses atrás, logo pensei “quem é o vadio/vadia na verdade?”.  São essas garotas covardemente listadas nas mais tenebrosas “premiações do ridículo”, ou são os desocupados garotos que promovem tais definições fúteis e discriminatórias? Onde realmente se encaixa o conceito?
Creio não ser uma pergunta difícil.


Segundo a reportagem, os rankings já existem por mais de um ano, e os “critérios” são dos mais variados. “Fulana usa aquela calça colada e anda rebolando, merece a posição 7”, “Tati ficou com seis moleques, putz, essa é um claro caso de 5º lugar”, “Bruna enviou foto nua para o namorado e tá rodando no whatsapp, merece um 2”, e a medida que essas garotas vão vivendo, o ranking vai se movimentando e suas colocações transitando.

Os “resultados” eram divulgados nas redes sociais e até mesmo em cartazes colados nos muros das escolas e da universidade, no caso da USP. E infelizmente, os tais “Top 10” não estão restritos aos locais que ocorreram as denúncias na mídia, já existem registros de casos no Rio de Janeiro, Minas Gerais, Paraná, e sabe-se lá, por onde mais essas ultrajantes listas estão sendo formuladas. Uma verdadeira praga. Tal como um Oscar, também aparecem outras categorias “a mais preta”, “as lésbicas”, e ninguém está a salvo de, involuntariamente, participar do certame.


Dentre os mais variados temas que o assunto trás à tona, como educação, orientação sobre sexualidade para os jovens, quebra de tabus nas escolas, diálogo, atuação do Estado para propiciar atividades educativas aos jovens, promoção da equidade de gêneros dentro da escolas e comunidades, é fato que essa notícia apresenta um exemplar perfeito de vários erros que nós mulheres confrontamos no dia-dia.

E a origem do problema é o mesmo. Pausa para o “ai lá vem”, “ela vai dizer aquela palavra...”, é, já aviso, vou dizer SIM que a semente do problema vem da (des)construção de uma sociedade ma-chis-ta. Pronto, tá aí a palavrinha chave que você não queria ler, machismo.

Mesmo que alguns torçam o nariz para o machismo, não é novidade que ele protagonize e seja a causa de criar situações deploráveis na história de garotas que apenas estão tocando suas próprias vidas. Mas saber que meninas estão abandonando os estudos, reclusas em casa com depressão e até mesmo considerando o suicídio por conta das facetas do machismo, é novidade para você? Se não for novidade, com certeza não deixa de ser preocupante, melancólico, aterrador.


Os garotos tiveram sua cota de “Top 10”, em contrapartida, são classificações desejadas, disputadas entre eles, ora, o “pegador”, quer título melhor? A eles, o orgulho, a elas, a vergonha. Precisa mesmo reiterar que “slut shaming”, ou também conhecido como a perversa fiscalização do comportamento sexual das mulheres, é errado, é prejudicial?


E se vier com esse papinho de que “nessa idade tem é que estudar, se tá nessas listas é porque boa coisa não tá fazendo”, segura esse alerta: qualquer opinião dessa natureza é infundada,  medíocre, não acrescenta e nem faz voz no coro. A voz que se destaca aqui, clama por respeito. Respeito às descobertas, à intimidade, às experiências de cada uma. Respeito ao direito da mulher conduzir sua vida íntima, afetiva, amorosa como lhe convir. Não é utopia, é autonomia. Questão de equidade, existe, e não é um sistema falido.

Diante a polêmica das escolas de São Paulo, algumas meninas ainda foram questionadas pelos pais (inversão vítima-ofensor), sofreram forte preconceito da comunidade, foram deliberadamente julgadas e apontadas. “Joguem pedras nas Genis!”, pensaram eles. São garotas adolescentes, passando por uma turbulenta fase psicológica e física, procurando aceitação. Repudiamos o apedrejamento de mulheres em outros países, nos gabando da nossa nobre civilidade, enquanto ignoramos que as palavras ferem tão gravemente como uma rocha.


Quanto às meninas que pactuam e cooperam com essas listas, é uma lástima ainda mais sofrida, entretanto, compreensível, em que pese ser resultado da insistente perpetuação do discurso machista que se beneficia com a rivalidade e competitividade feminina. E aqui me permita incluir um conselho, porque não podemos deixar as minas andando sob o véu escuro da ignorância: moça, conspurcar a coleguinha através de ofensas quanto a sua sexualidade (“piranha”, “puta”, “vadia”) não torna a sua reputação intocável e pior ainda, tem efeitos nocivos em todas mulheres, inclusive em você mesma! A ofensa sexista afeta a todas nós, e só tem o condão de nos privar de desfrutar os prazeres que a liberdade proporciona!

A resposta para as humilhações públicas não é revidar os autores no mesmo sentido negativo, mas sim retirar o efeito negativo de nós! Aos desavisados que estavam em Marte nas últimas décadas, feminismo não é o contrário de machismo, não queremos que atitudes opressoras se igualem para ambos os lados, mas sim que a liberdade prospere para todos, como iguais.

Já falei e repito, mulheres, uni-vos! As listinhas e outros truques existem para nos enfraquecer, quebrar o elo. A mudança começa em nós. Os patrulheiros da sexualidade feminina se alimentam da nossa vergonha, da nossa vulnerabilidade em acreditar que ser livre é errado, e sentir culpa é o certo.


Se o sossego de uma mulher depender da aprovação alheia através de um criterioso processo seletivo de análise do seu histórico comportamental, nenhuma com o mínimo de personalidade passa no teste! Aliás, você precisa se sujeitar a testes? E aquela que não estiver no desconhecido éden-das-mulheres-perfeitas, está facilmente sujeita a amanhã encontrar seu nome nas infames listinhas das top 10 vadias! “Pô, mas aí você foi radical e cruel...” Não, crueldade é tabelar e expor a mulherada com o egoístico intuito de rechaçar e se divertir com a humilhação delas, ainda mais quando a listinha do ‘quem te perguntou’ não tem ninguém inscrito. 


Ignorar não é tarefa fácil mulherada, mas podemos criar redes de diálogos e informação que recicla esse lixo em lições úteis de conscientização para garotas e garotos.

O nosso trabalho é conjunto, é aprendizado e é luta, para que nenhuma mulher se sinta inferiorizada socialmente pelas estratégias machistas de desmoralização. O pomo da discórdia não premiará a mais bela, mas com certeza continuará criando rankings que reforçam conflitos entre guerreiras que batalham do mesmo lado. Não vamos sucumbir, e iremos ao socorro de todas que caem nessas armadilhas. Aqui, Afrodites, Atenas e Heras não disputam entre si, estão lado a lado, unidas por uma razão que verdadeiramente vale a pena lutar.


Por Morato/Agridossiê

Gostou do nosso blog? 
Então fique por dentro das nossas atualizações!
Na barra lateral direita, tem a opção 'Seguidores', sinta-se muito convidado para nos seguir! É rapidinho e fácil. :)
Nos encontre no Facebook, na nossa página Agridossiê.
Também estamos no Instagram@blogagridossie

quinta-feira, 28 de maio de 2015

Mamãe, quero ser uma Suicide Girl!

Vocês conhecem o site Suicide Girls, certo?​ ​A proposta inicial era mostrar ​fotos sensuais de ​meninas com tatuagens, piercings, cor de cabelo e estética considerada "alternativa". Dizem que o propósito é mostrar estilos de vida alternativos, as personalidades de mulheres corajosas e admiráveis, como indivíduos fortes, confiantes e com atitude, e, assim, ​contestar os padrões de beleza​. O que soa até interessante, se a gente não soubesse que ​é apenas uma excelente descrição para ​explorar a pura e simples pornografia.


Eu tenho muitas tatuagens, logo existo.


Mas qual o problema com a pornografia?​ É até empoderador tirar a roupa, mostrar para a sociedade que a nudez não é ofensiva, não é? O problema é a forma como essa nudez é vendida. Porque parece que ela só não é ofensiva quando se está dentro de um padrão. "Nossa, Hell, mas olha o nome do site. As minas cometeram "suicídio social". Elas são diferentes do padrão, são alternativas". É mesmo? O que é ser alternativo hoje em dia? É ter tatuagem, piercing e cabelo colorido?​ ​Sério mesmo?





Outro ponto hilário é o de "redefinir a beleza feminina." Ah! Por favor! Basta dar uma rápida olhada no site​ ​das SG para perceber que​ ​95% (ou mais) das meninas que estão​ ​ali​ ​seriam​ ​consideradas​ ​bonitas​ ​por qualquer pessoa, poderiam facilmente posar para qualquer revista de moda. É claro, pois essa maioria tem​ ​o padrão eurocêntrico de beleza, ou seja, nada além do inverso do que vendem.


Migas, vocês estão gordas. Aqui só pode magrinha. Mas é que a gente defende a beleza diferente.
Há poucos dias eu vi um ensaio aqui de mulheres obesas nuas. E eu inventei de ler os comentários (sempre me arrependo quando faço isso) e o que vi foi um verdadeiro derrame de chorume. Aquele ensaio realmente incomodou as pessoas a ponto delas exalarem ódio. As pessoas diziam que aquilo era horrível, que o ensaio era ridículo, que ultrapassava todos os limites, pediram para tirar do ar e daí pra baixo. Vejam, eram mulheres obesas sendo fotografadas nuas. Com seios, barriga e celulite à mostra. E aquilo incomodou de um tanto as pessoas, principalmente homens, a ponto deles sentirem nojo.




Isso é o transgressor para mim. Porque as pessoas são tão bitoladas em seguir e manter o padrão, que qualquer coisa que fuja a isso se torna motivo de ódio. Para mim, a arte tem sim que incomodar, senão vira nada mais que um ensaiozinho comum e fútil que dita como você deve ser.

Portanto, se você acha muito transgressor a mocinha magra, branca, cheia de tatuagens e piercings posando nua, saiba que ela só está sendo mais uma pecinha no muro. Isso pode ter sido transgressor há algumas décadas. Desconfio até que a beleza esteja associada à novidade. Hoje este tipo de ensaio não passa de reforçador de estereótipos que permanece a objetificar a mulher.

E sabem por que objetifica? Os mesmos que exaltam a beleza destas mulheres, são os que as chamam de “vadias, putas e que só servem pra comer”, desrespeitam e criticam como nada além de meros pedaços de carne prontas a serem consumidas. Critica-se a MORAL das moçoilas.




E o SG consegue vender sua ideia de maneira tão eficaz que a cada dia sua popularidade aumenta. São meninas ansiosas para serem consideradas "bonitas", "de atitude" e "únicas". O que é uma falsa ideia de libertação, já que uma mulher realmente confiante não precisa de exposição online para receber aplausos virtuais e reafirmar - com base em opiniões do tipo "gostosa" - que realmente é sexy, sensual e "de atitude".

Engolem uma falsa ideia de "liberação sexual" das mulheres, que não é nada mais que um feminismo disfarçado de machismo (aliás, esse é o único momento que vejo os homens gritando: "Liberem-se, mulheres!"). Como podemos conseguir fazer a sociedade parar de nos olhar como meros objetos sexuais atuando como... objetos sexuais? Isso é realmente liberdade?


Hummm... rosinha, do jeito que eu gosto!
É uma armadilha muito grande que as meninas caem. Eu até creio entender: as vezes, a insegurança e carência delas é tão grande que elas acham que vão curar, mesmo que superficialmente, com os comentários alheios. Elas não veem que a mudança vem de dentro. Então é muito mais fácil investir em artifícios físicos do que se conhecer, e alimentar o intelecto com novos conhecimentos e opiniões.


Mim deixa, são meus 15 segundos de fama!
Enfim, por décadas mulheres lutaram para se alcançar a igualdade de gênero, diminuindo o machismo que nos deu valor algum senão como meros pedaços de carne. Uma luta para sermos respeitadas como pessoas, por nossas mentes e nossos valores éticos, e não apenas como ornamentos.

Lutou-se inclusive para que mulheres pudessem expressar sua livre sexualidade. Liberdade, a meu ver, é desconstruir, abalar padrões - neste caso, os de beleza, mas no SG, só pode haver nudez se o objeto for bem definido. Onde pode haver liberdade onde o corpo é minuciosamente criticado: se ela não estiver dentro de um padrão eurocêntrico de beleza, ela é considerada lixo, não pode posar. Porque mulheres, afinal, só servem para enfeitar. Analisam até a cor do mamilo e do ânus! Liberdade imposta não é liberdade, é opressão.

Liberdade é afrontar o que é esperado. Mas no SG, espera-se que a mulher seja de tal maneira, pose de tal forma, seja de tal padrão. Tudo muito bem definido. Como eu disse, há uma década era afronta. Hoje, as minas que cometeram “suicídio social” não passam de pseudo-pinups decadentes. Está na hora de mudarem de nome.


"A maior beleza está no corpo livre, desinibido em seu jeito de ser, gracioso porque todo ser vivo é gracioso quando não vive oprimido e com medo. É a livre expressão de nossos humores, desejos e odores; é o fim da culpa e do medo que sentimos pela nossa sensualidade natural; é a conquista do direito e da coragem a uma vida afetiva mais satisfatória; é a liberdade, a ternura e a autoconfiança que nos tornarão belas. É essa a beleza fundamental.” - Maria Rita Kehl

*** 

Por Hell/Agridossiê

Gostou do nosso blog? 
Então fique por dentro das nossas atualizações!
Na barra lateral direita, tem a opção 'Seguidores', sinta-se muito convidado para nos seguir! É rapidinho e fácil. :)
Também estamos no Instagram@blogagridossie

quarta-feira, 29 de abril de 2015

Aquela do Inferno


O telefone toca, atendo, é ele:

-“Então... estou ligando para me despedir.”
-“Estava pensando em você. O que está fazendo?”
-“Fumando um cigarro... aguardando. E você?”
-“Olhando o céu. É pela imensidão dele que ainda consigo enxergar a beleza de não sermos nada além de poeira das estrelas.”

Era o fim. Um enorme asteroide iria se chocar contra a Terra. Toda forma de vida existente nela deixaria de existir.

-“Queria dizer que foi um prazer dividir esta existência com você.”
-“O prazer foi todo meu, querido. Obrigada por tudo...”

***
Acordo. Estou em uma mata bem fechada. Uma floresta, talvez? Tudo não passou de um sonho?

-“Oi?”
-“Como viemos parar aqui? Não consigo me lembrar de nada...”
-“O asteroide caiu. Era para estarmos mortos.”
-“Talvez viemos parar na ilha de Lost.”

Olhamos ao longe, vemos uma fila enorme formada na frente de um portão de ferro gigantesco. Nos aproximamos e ouvimos gritos estridentes para que todos se organizem.

Sinto uma forte baforada atrás de mim. Ao olhar para trás, um cão gigantesco com três cabeças respirava ofegantemente. Logo se via que estava estressado e estranhando a quantidade de pessoas que ali estavam. Pego um galho, jogo ao longe e ele sai correndo para buscar todo alegre.

-“Espera aí, um cão com três cabeças? Só pode ser...”
-“Cérbero, querido, o guardião do Inferno.”
-“Então nós estamos...”
-“Vamos todos formando a fila que tem lugar pra todo mundo. Droga! Justo hoje que estou com pouco contingente. Não estou entendendo é nada. De onde saiu tanta gente de repente? Já se foram os grandes terremotos chineses e as boas condições de higiene dizimaram a Peste Bubônica.”

E eis que vemos um ser enorme caminhando em nossa direção: vermelho, com chifres, voz grossa e pernas musculosas como um bode.

-“Seria uma mulher fruta?”
-“Shhhiu! Ãn, ér, senhor? Me desculpe incomodá-lo. Sei que a situação parece meio caótica, mas poderíamos saber onde estamos?
-“Ah sim, pois não. Bem-vinda ao Inferno. Ali na frente meus subordinados irão te dar todas as informações necessárias. Peço desculpas pela falta de organização, mas não esperava tanta gente de uma só vez e liberei uns demônios para irem se divertir na Terra disfarçados de jornalistas e atores para disseminarem que vacinas causam autismo. Será que ainda chega mais gente?”
-“Ah, muito mais! Os humanos foram exterminados pelo asteroide e... desculpe, mas o senhor seria quem?”
-“Grande desse jeito, voz grossa, patas de bode, quem você imagina que eu seja?”
-“Uma panicat?”

Olho para o lado, vejo o ser que dividiu a existência comigo xingando aos sete ventos.

-“Pulta que o pariu! Não acredito nisso!”
-“No que? Que viemos para o inferno?”
-“É! Significa que EXISTE um céu e um inferno. Tudo o que acreditamos a vida inteira estava errado!”
-“Sim, é uma droga. Mas poderia ser pior. Poderíamos ter ido parar no Nosso Lar.”

Ele senta no chão colocando as mãos na cabeça.

-“Foda... vamos sofrer pela eternidade. Ei, senhor Satanás, apesar de não terem chegado todos ainda, acredito eu que era pra ter muito mais gente, não?”
-“Sim! Mas o tal do “arrependimento” de última hora.”
-“Como assim?”

Adentramos os portões de ferro. Escuridão, rios de lava, sofrimento, gritos, pessoas sendo torturadas e um calor tenebroso. Ao fundo, podemos observar pessoas amarradas a cadeiras com fones de ouvido, se debatendo desesperadas.

-“O que está acontecendo com elas? Estão levando choques?”
-“Elas ficarão ouvindo Luan Santana pela eternidade.”

Meu companheiro, visivelmente transtornado, grita:
-“Nãããããão!”
-“Deviam ter pensado em seus atos enquanto ainda estavam vivos. Quem mandou não se arrependerem? Este é o Inferno.”
-“Mas Seu Satã, me diz uma coisa: como é essa história de arrependimento?”
-“Ah! Só sobram pra mim os peixes pequenos. Quem eu realmente estava mirando vai lá pra cima. É só se arrepender no último momento."
-"Ué, mas é tão fácil assim?"
-"Exatamente! A pessoa pode ser uma grandessíssima filha da puta a vida inteira, pode ser corrupta, exploradora, pedófila, traidora. Mas daí vem o último arrependimento e pimba! Consegue o perdão, sobe e eu que fiquei a vida toda dela só prestando atenção e achando que ia me dar bem por aqui, o Outro lá é que leva."
-"Mas isso me parece bem injusto... porque é como se a pessoa não precisasse ter responsabilidade alguma sobre os próprios atos."
-"Muito injusto. Nunca meto a mão nos grandes, mas não posso fazer nada."
-"Quem disse?"

Ele coça a cabeça intrigado. Acenamos para outras pessoas se aproximarem e começa-se então um debate entre pensadores, filósofos e artistas para tentar convencer Satanás sobre a possibilidade de se criar uma nova realidade para o inferno.

Sócrates: -"Deixe-me fazer algumas perguntas… Se aqueles que realmente fizeram atrocidades estão lá em cima, não parece uma perda de tempo punir os que estão aqui embaixo?"
Satanás: -"Bem… é que…"
Aristóteles: -"Exatamente, você estaria punindo quem não burlou o sistema, quem assumiu responsabilidade por seus atos. É uma questão de lógica."
Satanás: -"Bem… em tese…"
Maquiavel: -"Tese? Não, a teoria não se separa da prática! Se quer alguma mudança, tem que realizá-la na prática!"

Visivelmente empolgado com a conversa, meu companheiro diz: 
-"Precisa mesmo essa coisa maniqueísta de fazer do inferno um contraponto do céu?"

E eu indago:
-"Porque não tocar nossas vidas por aqui de forma normal?"
Satanás: -"Mas… eu perderia minha função!"

Respondo:
-"O mundo não gira em torno do seu umbigo!"
Copérnico: -"Cuidado, amiga. Eu vim parar aqui por levantar essa lebre de girar em torno de… esse papo não é muito bem visto."
Satanás: -"VOCÊS TEM RAZÃO!"
Todos: *comemorando*
***

Saio do meu prédio, o Dante’s Residencial Clube, entro no meu carro, um grande veículo utilitário movido a hidrogênio.

-“Não faz barulho nenhum, né?”
-“Ainda bem que desenvolveram essa tecnologia por aqui. Com essa coisa do inferno ter teto, a poluição estava ficando absurda.”
-“O que aconteceu com o seu?”
-“Eu saí para ver o novo stand-up do Bill Hicks ontem à noite. Encontrei com uns amigos, esticamos naquele barzinho onde o Miles Davies está tocando agora. Preferi deixar o meu carro no estacionamento do que dirigir bêbado. Me deixa lá agora?”
-“Claro! O bom é que ninguém vai roubar seu carro. Mas hein, incrível como sempre tem coisa bacana pra fazer de noite aqui no inferno, não?”
-“Exatamente. Nos vemos mais tarde no show da Janis com o Hendrix?”
-“Combinado! Vou encontrar as meninas agora. Até!”

***
Encontro Naara e Rose na grande praça circular em frente a um gigantesco portão feito de metal retorcido, todo estilizado com motivos demoníacos, pentagramas e números 6. O portão fecha a passagem de uma estrada, única entrada possível no intransponível muro que circunda o inferno. Agora escrevemos para o blog Enxofriê com os codinomes Hellzebuah, Astaroseh e Naazuzua, nomes pelos quais ficamos conhecidas pelos habitantes locais.

Astaroseh: -“Ô portãzinho brega, hein?”
Naazuzua: -“Parece que chamaram o Picasso para refazer. Ele ganhou a concorrência contra o Van Gogh. Está no portal da transparência do governo infernal.”

Viro-me para o porteiro:
Hellzebuah: -“Oi? Bom dia! Nós temos autorização para sair e aproveitar o dia na ilha de Lost. Você poderia abrir o portão pra gente?”
Demônio: -“Deixa eu conferir aqui no sistema… Pronto! Confirmado.”
Astaroseh: - “Eu ainda me impressiono como não tem burocracia por aqui.”
Demônio: -“Desde a revolução as coisas melhoraram muito. Acredita que eu precisava achar passagens de escrituras sagradas que condenassem os que entravam aqui, TODA VEZ que chegava alguém? Vocês inventaram umas dez mil religiões diferentes! Algumas escrituras só estavam impressas em pedras… Era uma trabalheira.”
Hellzebuah: -“Sobra até tempo para estudar agora, não?”
Demônio: -“Ah… isso?” *pegando a apostila* “Estou me formando em Filosofia semestre que vem. Pegar um cargo melhor, sabe? Adorei esse novo plano de carreira!”
Naazuzua: -“Olha só, ser promovido por se formar em Filosofia!”
Hellzebuah: -“Graças ao diabo!”
Todas: -“Hahahaha…”
***

Vinte anos após Satanás ter se rendido à falta de lógica do sistema estabelecido e decidido que aquela sociedade se regularia por regras próprias, um novo sistema foi implementado no Inferno. Um sistema baseado na Justiça sem corrupção, em Educação que estimulasse o pensamento crítico, na realização do Bem com desprendimento, sem espera de benefícios, em Integridade Social.

Prontamente as pessoas que ali estavam se organizaram. Para surpresa geral, a coisa começou a funcionar bem, talvez pelo perfil dos moradores, pessoas que se recusaram a aproveitar uma brecha no sistema para se dar bem e foram fiéis às suas convicções. 

E esta dinâmica funcionou de forma tão brilhante que um vasto campo de Filosofia, Ciências e Artes se desenvolveu. Uma sociedade organizada e progressista baseada na racionalidade despontava e produzia como nenhuma outra. Homens e mulheres eram tratados como iguais, havia respeito e liberdade a ambos. Havia solidariedade social sempre pensando-se no bem estar coletivo. A evolução social saltava aos olhos. 

Muitas cabeças pensantes estavam no inferno. Não haviam pessoas acorrentadas a falsas crenças, preconceitos, ódio, ideias enganosas e inertes em poucas possibilidades. Não havia como tirar a responsabilidade de si pelos próprios atos e atribuir a outrem. Vivíamos em uma caverna, mas éramos iluminados pela luz do nosso próprio conhecimento.

*** 

Por Hell/Agridossiê


Gostou do nosso blog? 
Então fique por dentro das nossas atualizações!
Na barra lateral direita, tem a opção 'Seguidores', sinta-se muito convidado para nos seguir! É rapidinho e fácil. :)
Também estamos no Instagram@blogagridossie
Lembrando, envie sua foto para a “Cabelo bom é o meu!” no email: agridossie@gmail.com
Comentem, compartilhem e acompanhem nossas postagens!!
Beijos!

sexta-feira, 13 de março de 2015

Sobre Relações Livres

Nós vivemos em um paradigma monogâmico que poucos se atrevem a contestar. Talvez por isso as relações livres tornem-se tão valiosas e o debate sobre elas deve ser estimulado. O senso comum pressupõe que relações não-monogâmicas pregam a libertinagem, conceito que se afasta da ideia de liberdade. Nossa cultura dita que o modelo único viável de relacionamento seja a monogamia, e nisto está incluso como um casal deve se relacionar e sentir. A relação de possessividade é intrínseco ao modelo monogâmico, o que bate de frente com o conceito de amor livre: respeito com as vontades do outro, solidariedade e, principalmente, liberdade. 


Você sabe o que é uma relação livre?
As relações livres não são baseadas em posse e nem em regras pré-determinadas. As pessoas podem ter relacionamentos sexuais/afetivos com uma ou várias pessoas desde que seja algo consensual e de livre escolha. Existem diversas “vertentes” de como cada casal poderá se relacionar: se a pessoa vai ficar com uma ou várias pessoas, se terá um parceiro principal, se ficarão juntos ou separados, etc. Cada casal se adapta da forma como achar melhor sempre com muito diálogo e acordos, podendo ser mutáveis e como cada um irá se sentir mais confortável.


É claro que é uma negociação complicada por si só porque exige sim comprometimento ético e amadurecimento emocional. A ausência de contratos de exclusividade não pressupõe a ausência de um compromisso com as demandas emocionais do parceiro. Mas a diferença é que ninguém está ali por obrigação, cumprindo ritos determinados de como deve ser uma relação. É completamente possível se construir uma relação com extremo respeito, carinho, honestidade, cuidado, companheirismo e amor em relações não-monogâmicas.  


E é por isso que eu questiono a monogamia compulsiva. O casamento em si é uma instituição falida, é a forma de escravidão de um sexo pelo outro. A monogamia pode estimular ciúmes, posse, egoísmo, sofrimento, feminicídio. Traições são tão recorrentes que se tornaram aceitáveis. Onde fica o respeito ao fim de tudo isso?

Uma coisa é ter confiança mútua e acordos, declarados ou não, com o parceiro, e esperar que nenhum engane o outro. E outra coisa é achar que se tem direito de controle sobre as ações da pessoa. Se ela não quer ou não pode manter acordos, ou se estes acordos mudam, ou se a outra parte não quer ou pode ceder, não há como manter este tipo de relacionamento e ele está fadado ao fracasso. 

Será que a sua maneira de amar é que não condizia com o que você realmente queria?
Um pouco de História
A monogamia não é uma regra natural aos relacionamentos. A forma de se relacionar mudou em cada momento da história, ou seja, ela é transitória. Acredita-se que ela tenha surgido junto com a propriedade privada. Com o excedente de produção e apropriação dos homens, estabeleceu-se a divisão sexual do trabalho. Com isto, o papel da mulher foi reduzido à reprodução e execução do trabalho doméstico. Tudo indica que o casamento monogâmico serviu para instituir o controle sobre a sexualidade feminina para não permitir que pairassem dúvidas sobre os herdeiros. A mulher passa então a também ser propriedade do marido, tendo como única função social a de procriar. 
A partir de hoje você só procria, fia.
A monogamia em si é opressora para os dois sexos, mas para a mulher ela tem um peso ainda maior. Enquanto o homem é estimulado a desenvolver sua sexualidade desde cedo, a ter várias mulheres para provar o quão macho e viril pode ser, a mulher precisa ser casta, além de ter as melhores atribuições, ser a mais bonita e interessante, para finalmente ser a “escolhida”. E se ela não for, vem a insegurança de que não foi boa o suficiente, de que não deu o melhor de si. Ainda carregamos o peso de viver para agradar, de se manter virgem e esperar o príncipe encantado, porque uma mulher só é completa se tiver um homem. Para uma mulher, demonstrar que vive uma livre sexualidade, que pode possuir vários parceiros ainda é sinônimo de ser julgada moralmente.


E o ciúme?
Vivemos em uma cultura que romantiza o ciúme ao máximo, como se quem não o sinta, é que não ame de verdade. Eu não consigo pensar em algo mais egoísta. Na era do amor romântico (que Hollywood ajudou a disseminar), calcada na idealização do outro, tem-se a obrigação de se estar com alguém porque senão você não é uma pessoa inteira, completa. Estimula-se a dependência amorosa salvadora de alguém.


Agora deixa eu falar uma coisa pra vocês: ciúmes não é bonitinho. Ciúme é doentio. De nada adianta querer controlar ou monopolizar o pensamento/sentimento alheio. Para se conseguir ter uma relação saudável com alguém, é preciso antes de mais nada, amar a si mesmo, ser completo sozinho. As pessoas acham que sua forma de amar é a única, a verdadeira e a correta, e qualquer coisa que saia disso não é amor. Por isso não entendem um relacionamento que não seja baseado em invasão de privacidade e monopólio das ações, dos pensamentos e da própria pessoa. Mais fácil pensar que o outro não sabe amar do que perceber que se está fazendo um papel ridículo. O erro é sempre do outro.

Exatamente por vivermos nesse modelo de posse, temos insegurança, medo de perder. Mas sentimento e ação diferem. Mesmo que não consigamos controlar o ciúmes, podemos nos esforçar para controlar nossas ações, e tentar fazer com que o ciúme não faça mal para o relacionamento.

Ao contrário do que possa parecer, relações não-monogâmicas não devem significar não se importar com o sentimento do outro. Não se importar com o ciúme que porventura apareça. Todo tipo de relação deve envolver carinho, cuidado e respeito. Devemos fazer com que a pessoa se sinta valiosa e não menos que isso. Estimular o cuidado mútuo, cuidar para tratar qualquer ciúme e não ignorar como se aquilo fosse um problema só da pessoa. 

Longe de mim defender o ciúme, que é um sentimento terrível de se sentir e conviver. Mas em uma relação de cumplicidade, carinho e respeito, isso deve ser um ponto a ser superado pelos dois, pois é algo importante e pode fazer com que tudo caia por terra. O ciúme está relacionado à insegurança e à ideia de competitividade. Oferecer autonomia a quem se gosta é fundamental para que o outro não PRECISE de você. Mas que ele se sinta seguro para ESTAR com você de livre e espontânea vontade. Tem a ver com cooperação de ajudar o outro a cuidar-se e a ser autônomo, para que jamais a relação se torne utilitária e dependente. E eu falo isso como um desabafo de quem já sentiu insegurança em relações monogâmicas e não-monogâmicas. 


Hoje, eu posso dizer que sou monogâmica. Quando admiro e passo a amar verdadeiramente alguém, eu perco a atração e interesse sexual por outras pessoas. Não é algo forçado ou que eu não me permita fazer porque vou trair. Não. Simplesmente vai acontecendo naturalmente e, quando me vejo, estou completamente voltada para somente uma pessoa. Mas isso não me impede de fazer uma crítica à monogamia. E o que eu recomendo? Que as pessoas contestem também e que sejam felizes da maneira como acharem melhor: com um ou vários amores. Se somos diferentes um dos outros, por que devemos nos relacionar de maneira igual? Se vemos tantas pessoas infelizes em seus relacionamentos, traindo e permanecendo juntos pela convencionalidade, será mesmo que não existe algo errado no que estão vendendo por aí?


Não julgue outras formas de amar. Você pode não concordar e não se adaptar, mas já passou da hora que questionarmos essa monogamia compulsória que está aí. Podemos dar sim novos significados ao amor. Podemos ter uma afetividade, um amor e uma sexualidade que nos é própria.


E para finalizar, eu utilizo esta frase da Simone de Beavoir sobre sua relação com o Sartre, uma das definições mais belas que já pude ler:

"O que me entristece é que o casal permaneça unido pelo hábito, pela pressão social… Logo que dois seres se sentem ligados não tanto por se amarem, o que era libertação e plenitude transforma-se em angústia e prisão. Sartre e eu nunca vivemos juntos e sempre consideramos ser livres de correntes que nos prendessem um ao outro. Se permanecemos unidos toda a vida, foi porque nos amávamos profundamente e porque, livremente, sempre tivemos vontade de estar um com o outro. E isso é a coisa mais bela que pode acontecer a um ser humano. O amor dá força e coragem para enfrentar o mundo e a vida, a dois e não a um só. É muito!”


Gostou do nosso blog? 
Então fique por dentro das nossas atualizações!
Na barra lateral direita, tem a opção 'Seguidores', sinta-se muito convidado para nos seguir! É rapidinho e fácil. :)
Também estamos no Instagram@blogagridossie
Lembrando, envie sua foto para a “Cabelo bom é o meu!” no email: agridossie@gmail.com
Comentem, compartilhem e acompanhem nossas postagens!!
Beijos!

Por Hell/Agridossiê